sexta-feira, dezembro 01, 2006

Hiperactividade

Ainda ontem vi uma reportagem sobre hiperactividade que me deixou um bocadinho indignada. Na minha opinião esta é uma doença nova como tantas outras que vão surgindo com o passar dos anos e que, como nova que é, adquire dimensões alarmantes.

Por um lado indignei-me porque hoje em dia qualquer pessoa que tenha um tipo de comportamento menos igual ao da maioria já é rotulado como doente a precisar de acompanhamento. Quando isso acontece tem que se inventar um nome novo para apadrinhar o problema daquela ou daquelas pessoas. É nessa altura que nasce uma nova doença. E depois começam a ver-se imensas pessoas que apresentam os mesmos sintomas e depois já são tantas que se fala das novas doenças do século XXI.

Por outro lado indignei-me porque vi determinados comportamentos em crianças que me chocaram. Tudo bem, essas crianças até podem ter um problemazito qualquer, são demasiado activas, não conseguem prestar atenção a nada, não levam a cabo nenhuma tarefa, não conseguem dar ouvidos a ninguém. Mas dai a serem mal-educadas e agressivas com quem os rodeia vai um bocadinho. Reparei naquela criança de quatro anos (se a memória não me falha) que está numa consulta de psicologia com os seus pais. Apesar desta criança não ligar qualquer importância àquilo que a psicóloga lhe está a dizer, ainda vira costas depois de retirar agressivamente um objecto da mão da senhora. Ninguém lhe diz nada. Tanto os pais como a profissional de saúde ficam a olhar para a criança sem qualquer tipo de reacção. Ora, uma criança até pode ser hiperactiva, mas não é parva e eu penso que atitudes destas por parte dos encarregados de educação só facilitam o lado da criança que se diz doente. Será mesmo que eles são hiperactivos ou são apenas crianças normais, umas com mais genica que outras, personalidades diferentes, carácteres diferentes, que estão a descobrir o mundo e a quem um par de estalos ou uma repreensão mais feroz pode fazer milagres?

Não me cabe a mim discutir se a hiperactividade realmente existe ou se é apenas um novo conceito que alguém inventou porque não tinha mais nada para fazer. Conheço casos bem próximos de crianças insuportavelmente reguilas às quais nunca foram aplicadas medidas como uma palmada, um castigo severo ou uma conversa bem fundamentada. Se não lhes põem rédea curta como esperam que eles cresçam e se comportem nesse período? Acredito que na educação das crianças deve existir diálogo, compreensão, uma boa conversa por vezes tem melhores resultados que um sopapo. Mas quando temos crianças de personalidade vincada que começam a mostrar sinais de não querer ouvir, de querer fazer tudo o que lhes apetece, temos que adoptar medidas mais radicais. Um bom par de estalos nunca fez mal a ninguém. Não me venham com a conversa do coitadinho do menino, não se bate nas crianças. Muitos há, por ai soltos no mundo, que lhes teriam feito muita falta umas palmadas de vez em quando. Neste caso dar um estalo não é violência é educação. Não vamos deixar que os meninos tomem conta da nossa vida a seu belo prazer enquanto assistimos passivamente ao desmoronar de algo que devia ser a educação. As birras, os gritos, as choradeiras são normais, anormal seria se não existissem. É claro que alguns abusam desses seus direitos, mas nada que um pulso firma não resolva. Quando eu era pequena mandavam-me constantemente ficar quieta um minuto e, para isso, diziam-me que olhasse o ponteiro dos minutos e aguardasse que ele se movesse sessenta vezes. Ao fim de dez segundo eu dizia, o ponteiro está avariado. E ninguém mais conseguia fazer-me parar. Quando mais tarde me tentavam dar explicações de matemática eu fazia de tudo para não ter que suportar isso. A minha atenção não se conseguia fixar naquele emaranhado de números. Ao mesmo tempo eu era aquilo que se pode chamar de bicho-do-mato. Não falava com ninguém, em vez de prestar atenção ao professor a minha imaginação voava para bem longe e não saberia reproduzir o que tinha sido dito e feito durante a aula. Nos recreios isolava-me, preferia sempre a companhia de pessoas mais velhas como as auxiliares ou mesmo os professores ou então deixava-me ficar a um canto a olhar para os outros. Em casa, além do comportamento eléctrico tinha momentos de me fechar no meu mundo, sozinha e criar uma bola à minha volta cheia de imagens e situações imaginárias. Sempre tive os meus demónios com quem falava. Querem agora dizer-me por que nunca me foi diagnosticado autismo, por exemplo? Porque nessa altura a palavra provavelmente não existia. Não, não era falta de informação, venho de uma família informada, culta, atenta e bem formada. Apenas cresci num seio de boa educação onde se tenta lidar com a personalidade de cada um como sendo única. Não se mete tudo no mesmo saco e depois toca de lhe dar comprimidos para ver se lhe passa a parvalheira. Eu era mais introvertida que os outros, diferente e especial como todas as crianças do mundo. E acessos de raiva, birras e bate o pé sempre tive em criança, mimos a mais.

E sou uma pessoa normal, ou melhor, diferente de todas as outras, porque não existem pessoas normais. Todos somos seres humanos e temos o direito e o dever de crescer de forma sã baseados em princípios de igualdade, respeito, liberdade e bom senso.

1 comentário:

roler33 disse...

Cara Ana,

Sem querer armar-me em sabichão, isto da hiperactividade tem muito que se lhe diga. A doença já existe há muito tempo, só que agora teve algum mediatismo. O que se passa, e tu deves ter percebido isso, algumas crianças que são únicamente exageradamente irrequietas são rotuladas de hiperactivas. E porquê? Porque para determinados pais, pseudomodernos, é fino dizer que têm um filho hiperactivo em vez de dizerem que têm um filho mal educado, e outros são enganados por diagnósticos mal feitos.
Agora podes acreditar numa coisa, existem realmente crianças com o síndrome da hiperactividade e são realmente muito dificeis de tratar, porque o problema deles muitas vezes está em insuficiências fisiológicas a nivel do cortex cerebral, como por exemplo deficiência de serotonina.
No entanto, também estou de acordo contigo que muitos dos "hiperactivos" são únicamente mal educados.
A minha opinião, é que os diagnósticos têm que ser muito rigorosos e de extremo rigor ciêntifico, para não cairmos em rotulagens despropositadas e prejudiciais.

Um abraço,
roler3