Ora… o Natal. Bom, o Natal é a celebração do nascimento de Jesus. Quem não sabe quem é Jesus é favor procurar informação a esse respeito. Há 2007 anos que no dia 25 de Dezembro se comemora este dia. Se calhar não é preciso dizer isto, portanto não me vou alongar com a descrição de factos históricos. Não quero roubar o lugar do professor José Hermano Saraiva. Vamos então ao que interessa.
O que devia ser uma época de fraternidade, celebração e amor transformou-se de forma sublime em época de consumo, fartura e hipocrisia. É um bocado aquela história do «dá-me uma prenda e é se queres que te dê uma a ti.» E também «Nos chineses era mais barato, mas depois pode parecer mal.» Enfim, nos dias que correm o Natal gira em torno do número de prendas que se dá e se recebe e dos números que se gastam com elas. É uma correria desenfreada às lojas e aos centros comerciais para descobrir qualquer coisinha para oferecer. Claro que o que conta é a intenção, mas se me derem um plasma fico mais contente do que se receber um par de peúgas. «É só uma lembrança.» É o que se costuma ouvir, mas se alguém se esquece dessa lembrança parece muito mal. Quantas não são as pessoas que gastam o que têm e o que não têm para comprar lembranças?
Depois são as jantaradas. É bacalhau, polvo, doces e mais doces. Comemos que nem alarves até sentir a comida na garganta. Sobra imenso, divide-se pela família, o resto vai para o lixo. Mas o ponto alto da noite são as prendas. Não se aguenta até à meia-noite, pelas dez horas já estão todos a abrir embrulhos. Mesmo que não se goste diz-se «era mesmo isto que eu precisava.» Lá no fundo roem-se de inveja da prenda do irmão, ficam danados por não terem recebido aquilo que esperavam. Depois vai cada um para seu canto e ficam mais não sei quanto tempo sem se falarem. É que a vida é muito preenchida e não há tempo para se lembrarem da família. No Natal é que é. Ou melhor, tem que ser. Se não fosse a tradição, o socialmente correcto, nem no Natal se viam. E quando dizemos que precisamos de qualquer coisa, mas ninguém nos oferece porque é uma coisa reles? Aos olhos dos outros sim, mas para quem precisa não. Por exemplo, este ano precisava de peúgas, pedi umas coloridas com bonequinhos. Tive sorte, a minha mãe deu-me as peúgas, mas não as embrulhou em papel bonito, deu-mas num saco verde, ou seja, aquilo não foi uma prenda de Natal, foi uma oferta igual a tudo o que é comprado cá para casa ao longo do ano. Mas porquê? Gostei tanto das minhas peúgas! Mesmo oferecidas dentro de um saco verde fazem mais jeito do que o guarda-jóias que me deu a minha tia (não sei se devia dizer isto). É que eu não uso jóias. Coloquei-a no armário e por lá ficará a ocupar espaço até que eu tenha dinheiro para as jóias. Quando a desembrulhei a minha tia disse «é para guardares os anéis» e eu respondi «ou os dedos». Lá está, as pessoas tentam ser simpáticas e oferecem uma lembrança e nós, cruéis, dizemos estas coisas. Por outro lado, ao menos que nos oferecessem coisas úteis, se não sabem o que pode ser útil também aceitamos dinheiro, esse sim faz sempre jeito.
Confesso que sinto aquela expectativa na altura do Natal, não pelo jantar e pelas conversas que se repetem de ano para ano, mas porque tenho oportunidade de receber prendas, ou seja, posso pedir qualquer coisinha de que precise ou que me faça falta. Quem não gosta de abrir presentes? Mas é uma época triste. É a única altura do ano em que toda a gente diz ter pena dos que não podem ter um Natal com a família, com comida, com uma casa quentinha. E no resto do ano hã? Então, no resto do ano não existe pobreza, nem fome, nem frio, nem necessidades. No Natal somos tão bonzinhos, mas no dia a seguir voltamos a ser aquilo que sempre fomos, uns cegos que não querem ver o mundo que nos rodeia. Uns egoístas que só olham para o próprio umbigo. Felizmente ainda existem almas caridosas que ajudam quem precisa, que fazem algo pelos outros não só na época do Natal. Pois, é que quem precisa, precisa ao longo de todo o ano. O Natal não pode ser vivido à imagem do pai natal, mas sim do menino Jesus. O senhor pai natal, coitado, veste sempre o mesmo fato e não existiria se Jesus não tivesse nascido.