quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Complex

Numa altura em que se fala tanto da Era Digital e do Simplex, chego à conclusão que tudo isto não passa disso mesmo; de uma época cheia de zeros e uns que ninguém compreende e, os poucos que compreendem, não podem valer a um país inteiro. Implementar medidas que pretendem simplificar a vida dos portugueses, mais não é do que complicar a vida a esses mesmo portugueses. Ora vejamos:

Fazer o IRS através da Internet;
Comprar o selo do carro através da Internet;
Marcar consultas médicas através da Internet;
Estudar através da Internet de acordo com o moderno E-Learning (ensino a distância).

São só alguns exemplos, bons exemplos dirão, do que o Simplex tem para nos oferecer. Pois bem, num país onde a igualdade de oportunidades é tão badalada, não estará o responsável deste bendito Simplex a esquecer-se de qualquer coisa? Num pais onde a igualdade de oportunidades não passa do papel não estará a dar-se um passo maior que a perna? Não vamos esquecer que Portugal é um país de recente democracia, maioritariamente envelhecido e com uma taxa de natalidade brutalmente baixa bem como uma taxa de ilitracia demasiadamente elevada. O que uma minoria pode pensar ser a simplicidade da Era do Digital, leva a que a maioria da população veja os seus dias contados pelo facto de não ter quaisquer meios ou medidas para acompanhar essa Era tão desejada e conotada de um adjectivo muito forte mas não tão real como isso e ao qual se chama evolução.

Não basta dizer que agora somos um país que avança lado a lado com os nossos vizinhos da União Europeia. Não vamos em cantigas. Isso nunca será possível se não se construírem os alicerces. São imperativas medidas que permitam a toda a população poder usufruir da maravilhosa Internet e dos seus serviços. É necessária formação, aprendizagem, ajuda, solidariedade para com aqueles que não têm competências na área e que também não têm possibilidades de acompanhar o dito progresso. Se não tomarmos estas medidas urgentes, os poucos que se conseguem safar serão donos do mundo à medida que os outros cavam a sua própria sepultura apenas por não terem recursos para avançar também.

Mas vejamos também o outro lado da questão; Esta Era do Solitário é também uma Era pobre pela simples razão de que cada vez mais, pela força das circunstâncias, os que se safam acabam por se isolarem do mundo lá fora. Já não se vai a uma repartição de finanças entregar o IRS, já não precisamos sair de casa para ir à escola. Então e as relações humanas? Então e os afectos? Então e os olhares? Se cada vez mais o Simplex toma lugar nas nossas vidas, se cada vez mais nos tornamos sedentários, se cada vez mais nos enchemos de trabalho porque precisamos de dinheiro para acompanhar a Era do Digital, onde vai parar tudo aquilo que é a essência da existência humana? Num mundo onde o espaço é tão grande e, ao mesmo tempo, tão pequeno para muitos, vamos nós restringirmo-nos a pouco mais de dois metros quadrados que deve ser mais ou menos a distância entre a secretária e a cadeira onde nos sentamos?

Não devemos fazer o bem para que os outros nos achem bem. Mesmo que para evoluir tenhamos que mostrar uma imagem menos evoluída do nosso país, esse é o caminho, essa é a forma correcta de fazer uma casa. Começar por baixo, ser humilde, reconhecer os erros, o tempo é amigo da perfeição, já a pressa em ser bem visto pelos outros só pode trazer mais declínio e quedas mais altas.

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